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BISTRÔS CARIOCAS QUE NOS DEIXAM SAUDADES

A Coluna GENTE BOA da semana passada, do jornal O GLOBO, é mais uma homenagem ao lançamento do livro “Bistrôs Rio de Janeiro” do amigo e bistrólogo Alex Herzog. Joaquim Ferreira prefaciou a “obra”, com seu texto flash-inteligente, sempre meio saudosista da nossa cidade. Compartilho com ele e sua equipe esta mania: cultivar boas e tantas lembranças do Rio.

Quando a Cléo Guimarães, da coluna, me ligou na semana retrasada para dar um pitaco no meio do dia agitado, “de prima” falei do Yankee, mas no dia seguinte, vieram várias outras lembranças que escrevi para ela no e-mail que reproduzo adiante.

Na mesma coluna, o Roberto D’Avilla lembra do ROANNE, primeira aventura do Claude Troisgros por nossa terras, Cacá Mourthé do ZEPPELIN , donde guardo o primeiro menu da era Amaral (1968…), Sergio Rodrigues do HELSINGOR , e Boni lembra do BEC FIN, o bistrô mais chique e caro do mundo. Vale lerem, é puro deleite da memória da gula.

Segue meu e-mail para a Cléo:

De bate pronto, não dando para ajeitar a pelota, mandei ontem pra você o YANKEE BRASIL do Careca (Sr. Isidro), sócio do Juan Cabalero e do Carlos Lopes. Meu pai era advogado deles, e nasceu como ponto no Centro da turma do Fórum, Rua Rodrigo Silva quase esquina de Assembleia. Tinha até prato homenageando jornalista: Camarão à Pedro do Couto, e outros hits como o Peito de Frango ao curry, Filet de Haddock, e o famoso Linguado com espinafre batido (eu já era guloso, e me segurava no dia a dia com uma receitinha comportada). A grande curiosidade era a obrigação do paletó, pois o Sr. Isidro não queria baixar o nível diante de tantos desembargadores. Quem pintava lá mais a vontade, como o banqueiro Julio Bozano, recebia um paletó meio fajuto, comprado ali na esquina, na Casa Tavares.

Dei um ponto parágrafo de propósito: meu prato preferido quando a dieta ia para o “beleléu”, era o BROCHETTE COM ARROZ À LUIZ ANTONIO, em maiúsculas mesmo, como merece este espetinho de filet mignon com cebola roxa e pimentão vermelho sem casca. O ARROZ: os caras faziam um ovo mexido, misturavam com arroz, micro pedacinhos de bacon, salsa e a parte branca da cebolinha picada.

Um outro restaurante que nasceu Bistrô e depois se “enchiquesou” foi o ANTONIO’S, do Manolo. O Robertinho Apicius costumava lamentar que os restaurantes bons, de classe média, estavam desaparecendo, que tudo estava ficando mais desalmado. Deixa saudades para mim: casei duas vezes lá, onde conheci minha primeira mulher e onde comecei a namorar a segunda. Pena quando começou a exagerar com os Filets à Chico Buarque, Marcos Vasconcelos, Tonia Carrero, Rubem Braga, Tom, etc. Só não sei se Roniquito, Julinho Rego, Geraldo Dutra e Jacaré mereceram idênticas homenagens.

Agora para deixar a nossa chefia (*) feliz, lembro já com fome, do PENAFIEL na Rua Senhor dos Passos, quase Praça da República, um enclave lusitano no Islã. Fechava cedo, às 15h rigidamente, mas tinha a vantagem de apresentar seus pratos à visitação pública sem ser Buffet. Íamos ao fundo ver aquelas panelas, levantar a tampa, fechar os olhinhos e cheirá-las! Aquele leve sorriso de canto de boca, olhinhos ainda fechadinhos da silva… Neste ano faria 100 anos! Sempre tocado pela família Martins com competência, refletida na sua dobradinha, cozido, bacalhau com couve mineira e cabrito assado, só uma vez por mês.

Cléo querida, sei que vocês fazem volta e meia uma coluna das saudades cariocas, e neste métier a coisa é mesmo braba, muitos não duram, ou surgem problemas de sociedade, sucessão, ou finanças combalidas. Quando estava no meio das obras do Garcia, encontrei com o Fred Suter, mais mau que a maldade, no Jobi. Papo vai, papo vem, ele me pergunta: “Janja, quando vai abrir?”, e eu respondo: “Julho, Fred”, e de prima ele manda: “E quando vai fechar?“. Fiquei p. da vida, mas ele deu uma aliviada no seu veneno, contando que é um ramo difícil, não entendia a questão de largar carreira, chutar o balde, e finalizou bonito: “Mas vai deixar saudades…”. Sacana este Fred, que Deus o tenha!

Então é isso aí, o que me vem à cabeça de saudades da gula local. Beijo geral. 

(*): a ‘chefia’ que me refiro é o próprio ‘chefe’, responsável pela coluna, o Joaquim Ferreira dos Santos.

João Luiz Garcia de Souza

Rio de Janeiro 10 de dezembro de 2012