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CHICO VERÍSSIMO

Há duas semanas, Chico Veríssimo foi convidado para um longo repas com Dionísio, Pantagruel e Robertinho Apicius Azevedo Marinho. Aos 76 anos, deixa em todos os gourmets cariocas uma infinidade de boas lembranças.

Chico era operador de Bolsa, e o mercado financeiro faz das suas. Era o ano de 1976, logo após a quebra geral de 1971, quando muita gente bacana repensou a vida. Família com talentos, herdando um savoir faire familiar de primeira, partiu para a Serra, para Corrêas, ainda ao lado do Castelo. Com uma fazenda em Sapucaia, no norte fluminense, Chico fez na Serra os primeiros patês com gosto francês, e também queijos tipo boursin. Lembro que os patês na Serra até então eram do gosto alemão, de carne bovina, diferente dos de pato e fígado de galinha que o Chico produzia.

Em uma Rural Willys 1968, enchia isopores de queijos, cachaças, ervas aromáticas e tantas outras iguarias que garimpava pelo Estado, indo até Juiz de Fora atrás de sabores, aparecendo em nossas casas de veraneio nas manhãs de sábado para o deleite e apetite de todos.

Chico enviou seus filhos Henrique e Pedro para estudar Laticínios em Juiz de Fora, e fez crescer o seu novo negócio sobre dois de seus maiores talentos: sensibilidade do paladar e o fato de ser um exímio contador de histórias.

As histórias eram fantasiosas, o alecrim vinha de uma moita do Pico do Açu a 2.200 metros de altitude, e por aí se passavam os enredos do Chico, e quanto mais inventava processos e aromas, mais comprávamos os produtos, na hora, já abrindo pastinhas e torradas crocantes, iniciando o fim de semana no mais alto estilo.

No início dos anos 80, Tereza e Chico compraram a fabulosa casa da cachoeira, onde fizeram o bistrô paradisíaco CHICO VERÍSSIMO. Como escreveu Apicius: “…era ótimo, caro, inconfortável… mas deixava o mundo ao redor do jeito que está. ..”.

Era o verdadeiro ócio da natureza, a indolência do rio, o capim e o bambuzal que cresciam em deliciosa desordem, o frio que nos fazia devorar as raclettes, os escargots. Não era bem um restaurante, mas uma casa, pois ali em cima morava toda a família.

Sua sensibilidade era visível também no décor, pois não havia uma cestinha de pães que não viesse com suas flores de campo, seus arranjos colhidos ali pelo jardim, ao lado, no meio, tudo se misturava em perfeita desordem da natureza e do seu jeito de ser.

Guardo este meu primeiro contato com a “campagne”, o verdadeiro e admirado sentido de comer no campo, no mais puro country style, que veio rolar nas modas logo depois. Sergio Augusto certo dia me disse que o Chico trouxe esse estilo à gastronomia carioca, pois o bistrô da Serra, o primeiro, La Belle Meunière, era urbano, mais Lyon, não campestre.

Hoje convivo com duas alegrias: uma foto sublime de 1985, abraçado aos meus dois filhos (com quatro e cinco anos na época), João Pedro e Mariana, com a cachoeira ao fundo, de bigodão mexicano; e a outra, alegria também vivíssima, e sempre presente, de conviver diariamente com o Henrique Veríssimo, seu filho, recém cinquentinha, gerente do LORENZO Bistrô, que também guarda este ambiente de casa que aprendi com o CHICO.

João Luiz Garcia de Souza

Rio de Janeiro, 13 de novembro de 2012