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CONFEITARIA COLOMBO (1894 ao infinito)

Ontem almocei na Confeitaria Colombo do Centro com o chef Renato Freire e o jornalista Gente Boa, Joaquim Ferreira. A ideia surgiu do Joaquim, habitué da casa, mas também por ocasião do lançamento do livro sobre a famosa confeitaria.

Renato foi meu colega em consultoria econômica, antes de partir para uma longa temporada na Holanda, onde se tornou chef. Realizou um belíssimo trabalho ali, após Mauricio de Assis, recentemente falecido, adquirir a Casa e a marca famosa dos vários sócios, ex-funcionários inclusive, que quase levaram a casa à falência nos anos 80.

Conversamos sobre a importância da Colombo no Rio, sobre o atual ressurgimento do Centro com tantas atrações, novos e reformulados museus, e até sobre um projeto de associação de restaurantes, bares ou casas de chá com mais de 100 anos.

“Associação para locais com cem anos??”, me espantei .“Isto mesmo”, respondeu Renato , e citou: Casa Cavé, Bar Brasil, Lisboeta, Bar Luiz e a nossa Colombo, claro!

Mais tarde, à noite, me pus a folhear o livro: a fase áurea, o hábito de se tomar chá, o local de encontro de tout Rio, o período dos anos 50 e 60 quando deu-se o apogeu do Centro como local de trabalho, a transferência gradativa do mercado financeiro para São Paulo, a decadência do Centro, e o renascimento com os novos sócios… Um caso de sucesso muito raro.

As cidades se movem, locais antes glamorosos ficam “micados”, assim como os hábitos da população. Empregados, sociedade, as relações também ficam velhas ou enferrujadas, e superar isso tudo por mais de um século significa absoluta persistência das gerações que comandam, de adaptações do negócio ao novo público, de haver revitalização urbana no ponto comercial, enfim juntar tudo isto com uma boa dose de sorte.

E o décor? Na verdade a reforma com os espelhos e o aspecto que conhecemos hoje deu-se em 1912, Colombo ainda novinha, aos 18 anos. E esse é outro aspecto muito relevante: o mesmo ambiente!

Com a Colombo tudo isto aconteceu: a crise entre sócios, as gerações que se sucederam, os problemas financeiros e trabalhistas, a mudança de hábitos e a decadência do seu entorno. O fato incrível, ajudado bastante pelo seu tombamento, foi de certa maneira não ter feito muitas cessões aos modismos, mantendo seus principais ícones do paladar bem intocados: os casadinhos, as empadas, o camarão VG, as caixas com leques e os doces de ovos continuam os mesmos, apesar de ontem haver provado um ótimo polvilho com funghi em forma de telha, uma modernidade total, e também uma delícia, uma nova delícia.

Um dos grandes problemas do tombamento é manter o negócio vivo. Vejo a área de Patrimônio de nossa cidade, através do competente Washington Fajardo, pensando mil maneiras de colaborar com esta ação. Não é moleza, pois como obrigar os donos, os filhos e netos que mantenham confeiteiros ou chefs de restaurantes? Vocação, interesse e capacidade de empreender entram nesta complicada equação. De um fato não tenho dúvida: o Estado tem que fazer das suas, tem que ajudar.

Desta forma, ontem vivi uma tripla alegria: rever meu colega de Consultec, Renato Freire, notar que a Colombo está novinha em folha – da mesma forma quando eu ia com meus avós – e ainda ouvir, e sentir, o que é a história de um negócio deste gênero sobreviver a mais de 100 anos de vida. Um quarto prazer é estar com Joaquim Ferreira, sempre elegante e inteligente, na Colombo então, é alegria total!

João Luiz Garcia
Rio de janeiro, 11 de abril de 2013