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GOD SAVE THE CURRY

Um dos grandes enganos da gastronomia é achar que o termo CURRY é indiano. Trata-se de um mito, onde se confunde inspiração com produto final.

Na Índia, existe uma infinidade de molhos feitos a partir de misturas de especiarias, dos mais diferentes tipos, cores e gostos. Desta forma, caro leitor, se estiver na Índia e ler “curry” no menu, acredite estar em um restaurante para estrangeiros. Hoje, com a globalização que invadiu o país, existem os locais moderninhos da comunidade local, frequentado pelos grupos que trabalham em multinacionais, ou estudaram na América, fazendo assim uma gastronomia anglo-indiana.

Curry é uma palavra que os ingleses criaram a partir de outra, na língua tâmil “kari”, ou também do “caril”, como chamavam os portugueses que muito navegaram e colonizaram por aquelas bandas. Caril, em português de Macau, quer dizer molho com vegetais e condimentos.

O pó de curry, popularizado em todo o mundo, foi criado pelos britânicos no século XVIII. Vários servidores do Império Britânico, e até mesmo empresários que na Índia se estabeleceram, retornavam para casa na aposentadoria e não mais se acostumavam ao gosto insosso da culinária inglesa da época.

Friso a grande mudança daquela gastronomia a partir do final do século passado, em um movimento de incorporação de paladares de todo o mundo, até mesmo na tradicional cozinha inglesa. Exemplo disso foi o jantar recente no londrino “Dinner”, Heston Blumenthal , onde a antiga gastronomia é revista. Tive ainda o prazer de ser servido pelo maître sommelier João Pires, é digamos assim, ir à Lua de Londres.

De volta as nossas especiarias, outro engano comum é achar que o curry é um pó feito a partir de determinada planta. Trata-se de uma mistura de dezenas de especiarias, como pimenta do reino, gengibre, noz moscada, pimenta malagueta, canela, cuminho, cardamomo, coriandro em pó, cravo, e, especialmente, o turmérico ou cúrcuma, que além do sabor, traz aquela tradicional cor amarelada. Evite, contudo, perguntar a um indiano comum onde se pode comprar curry. Ele certamente não saberá.

O curry se popularizou tanto que virou motivo de um debate na Inglaterra vitoriana do século XIX, quando em meio a uma fome que assolava o país, o duque de Norfolk sugeriu que os camponeses tomassem caldo de curry para matar a fome. Nos dias de hoje, muitos chamam os restaurantes indianos em Londres de “Curry House”. São mais simples, mas estão espalhados por toda a região, totalizando mais de dez mil estabelecimentos por toda a Inglaterra.

As Curry Houses são, em sua maioria, dirigidas por bengladeshianos, e se tornaram parte da atmosfera de “comer fora” britânica, assim como os pubs. É muito famosa a crepe-panqueca de curry com côco, do famoso “Dosa n Chutny” no South River londrino.

A presença de companhias indianas na Inglaterra não para de crescer, e este investimento é seguido de perto pelas cadeia de restaurante indianos, cuja expansão se dá mais intensamente por aquelas bandas do que em Nova Delhi. Londres, sim, é a capital mundial do curry.

A minha, a sua, a nossa Nigella Lawson, junto com Jamie Oliver, a maior celebridade da culinária de TV britânica, foi apelidada de rainha do curry, especialmente pela sua receita repetida mensalmente na telinha, um dos pratos preferidos dos ingleses: “Frango tikka masala”. Nigella lidera um grupo que lá é chamado de “curryholics”.

Os ingleses não bobearam em incorporar este hábito. Não só enriqueceram sua gastronomia, mas sendo as especiarias um hábito entre os indianos de mais de três mil anos, são associadas a vários benefícios pregados pela medicina ayurvédica.

A cúrcuma, base do curry, é considerada anticéptico e boa para a cuca, doenças neurológicas; o gengibre excelente para gripes e resfriados; e a pimenta do reino aumenta a quantidade de sêmen! Talvez esta seja a causa dos escândalos sexuais tão comuns naquela sociedade. Vale conferir.

Dizem assim que o CURRY, não pela sua capacidade afrodisíaca, mas por representar o multiculturalismo da sociedade britânica, é considerado o prato nacional da Grã-Bretanha pelo ex-ministro do Exterior, Robin Cook. Vale sempre provar!

João Luiz Garcia de Souza
Rio de Janeiro, 03 de julho de 2013